11.8.10

Olhando o que não vê: pôster




Exposição Outros Lugares/ UFSM- Chico Lisboa


Esta exposição reúne artistas, mestrandos e graduados em Artes Visuais da UFSM, cujas pesquisas apresentam olhares diferentes na produção da imagem, a partir das tecnologias e mídias digitais. Das fotografias do espaço urbano de Carlos Dinaduzzi às manipulações fotográficas do corpo em cena de Karine Perez, definidas pela hibridação entre o analógico e o digital, a imagem constituíse nos fragmentos. Da presença do corpo de Cláudia Schulz, que transcende a ação perfomática introduzindo- se no ciberespaço, à personagem Entidade de Cláudia Loch, que migra da urbis ao ciber, o corpo constitui- se em imagem no território expandido pelo ambiente virtual. Do percurso urbano de Kelly Wendt fotografando ao celular casas com as aberturas lacradas, em silêncio, aos experimentos em vídeo de Fernando Codevilla, captados na paisagem urbana, com ruído, são exploradas imagens reveladoras da ausência e presença humana, deslocados na passagem de tempo. Do jogo, como intenção artística de Anelise Witt, a imagem resulta de um programa informático para grafar nossos desejos, uma pretensão de nos aproximar da tecnologia digital. Talvez a mesma, desta mostra.





Nara Cristina Santos


Curadora Doutora em Artes Visuais UFRGS/2004. Professora UFSM e Coordenadora do PPGART



Chico Lisboa » Outros Lugares - Santa Maria

Chico Lisboa » Outros Lugares - Santa Maria

29.7.10

Stand para olhos cerrados




Adesivo e cubo (quatro faces deolhoscerrados): materiais que compõem site specific Stand para Olhos Cerrados




Stand para Olhos Cerrados/ MASM/ JULHO/2010


Kelly Wendt revela seu percurso pelo espaço urbano na cidade de Pelotas, através de fotografias da arquitetura, que constituem o conjunto de imagens reproduzidas em múltiplos. Estes produtos de divulgação publicitária como boton, camiseta e banner, inseridos no campo artístico, têm a pretensão de dar visibilidade e divulgar o que artista define como "o drama das casas lacradas". Com a exposição Stand para olhos cerrados Kelly apresenta, mais da subjetividade silenciosa da tomada fotográfica das casas com aberturas lacradas, imagens reveladoras da ausência e da presença humana deslocadas na passagem do tempo e, menos da objetividade pretendida pela divulgação dos múltiplos. Mas é preciso reconhecer que a proposta da artista, dividida com o visitante, revela-se como recordação de uma vivência particular e divulga-se como lembrança de uma experiência pública, em que cada múltiplo-produto-arte, pode tornar visível o drama.
Nara Cristina Santos




Nara Cristina Santos

11.12.09

Apresentação em trânsito para uma poética em processo

Paulo Gomes*

Flâneries

Kelly Wendt é uma flâneuse, deambulando pela cidade, do presente para o passado, cultuando as suas ruínas e fascinada pela antiguidade que vai fabricando, reação de preservação a ação da destruição, conforme Cristina Freire (1997). Sua relação íntima com a sua cidade de adoção – Pelotas/Satolep – ecoa nas imagens visionárias do passado – que ela preserva/expondo em vitrines – e ainda nos textos que a (d)escrevem. Uma cidade palíndromo que não existe senão na memória das suas ruínas.

Ruínas

Cidade de casas aleijadas, cegas e mudas, corpos agora desfigurados. Guardiões silenciosos de algo que já não existe senão naquela vaga lembrança que ficou impressa nas (des)construções. Ação tão romântica essa de pintar ruínas, a sensibilidade "pelo viés da melancolia"! (Coli, 2004).

Ateliê

A cidade é o seu ateliê, seu lugar de ação e lugar de reflexão no qual sua câmarafone atua como objeto de registro e de memória. Para além da ferramenta de trabalho, seus desdobramentos avançam em imagens multiplicadas em postais e em adesivos, registros temporários de uma ação infinita, pois que é de caráter mais filosófico do que físico. Sua poiética é resultado da sua flânerie, que associada aos recursos da publicidade, possibilita um fazer artístico marcado pela mestiçagem de meios e pela mirada precisa nos objetivos.

Poética

A arte da fantasmagoria, da construção a partir da imaterialidade das coisas por meio da materialidade do desejo, conforme Agambem (2007). A poética em questão é a da reconstrução da imagem perdida, da identidade apagada, da memória obscurecida. Reconstrução da aura destruída do objeto através da criação da aura amplificada nas imagens múltiplas. Circulação de imagens. O espaço e a transitoriedade expandidos nesse imenso ateliê que é a cidade.

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Estâncias: a palavra e o fantasma na cultura ocidental. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

COLI, Jorge. Ponto de Fuga. SP: Perspectiva, 2004, p. 30.

FREIRE, Cristina. Além dos mapas: os monumentos no imaginário urbano contemporâneo. SP: SESC/Annablume, 1997, p. 57

* Artista plástico e professor no DAV-UFSM.




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30.11.09

A cidade que não vemos

A arte sempre teve por vocação abrir na história espaços para novos olhares, produzindo imagens críticas que provoquem um verdadeiro despertar.

Edson Luiz André de Souza

A cidade de Pelotas, lugar onde vive Kelly Wendt, é o sítio que lhe proporciona o surgimento do seu trabalho plástico. A relação com o lugar faz com que a matéria prima de suas fotografias esteja ao seu alcance durante as caminhadas numa conexão entre o corpo, o espaço e o tempo. As imagens captadas são o resultado do olhar diferenciado da artista, pois ela registra elementos não percebidos pelos que fazem os seus trajetos habituais. Reforçando esta situação escolho palavras da artista Daniela Cidade:

O fotógrafo ao tornar-se um flâneur visual, pode se tornar alguém obsessivo em tentar registrar aquilo que passa despercebido no dia-a-dia. A velocidade e a falta de atenção do espectador para o espaço urbano produz uma descontinuidade na percepção espacial. (CIDADE, D. 2005, p.90)

Em meio à trama urbana, Kelly realiza um inventário das casas abandonadas de Pelotas. As casas cegas e mudas que outrora faziam parte da arquitetura da cidade, hoje nada mais são do que corpos em ruínas e em silêncio guardiões de segredos e histórias dos que lá viveram. Como corpos abandonados ao seu próprio destino, cegos e mudos, com suas portas e janelas lacradas por tijolos ou tapumes, configuram um cenário de estranhamento à cidade, despidos de sua verdadeira razão de ser: a casa-morada. A presença faz-se ausência.

Na condição de escrever sobre o trabalho de Kelly, tento adentrar-me em sua poiética e acompanhar o vir a ser de sua obra. O seu processo criativo dispensa o ateliê - lugar de fabricação de imagens - e captura as que lhe são apropriadas através de seu celular, ou câmerafone, como o define. O uso dessa ferramenta eletrônica, de fácil manuseio e transporte, insere-se na contemporaneidade, onde o tempo veste-se de outros tempos para além do cronológico e onde vários artistas penetram com seus registros.

Kelly conjuga alguns verbos para construir a sua poética: caminhar, registrar, repetir, colecionar, apropriar, dentre outros. Em suas andanças através dos labirintos da cidade, resgata imagens de casas singulares que apresentam em comum transposições de significados; isolados de suas funções tornam-se corpos desprovidos de vida pontuando relações entre o escuro do lado de dentro e o invisível do lado de fora. Poucas vezes o avesso desses corpos é revelado por alguma fresta que deixa entrever as poeiras da alma, os vestígios e as memórias de quem ali habitou. Somos olhados por este passado e por esta perda e somos remetidos às palavras de Didi-Hubermann (1998, p.31): "... devemos fechar os olhos para ver quando o ato de ver nos remete, nos abre a um vazio que nos olha...".

A artista destaca construções com a escolha de alguns lugares, promovendo uma ação que consiste em produzir cartões postais e remetê-los aos moradores próximos e a lugares de grande circulação. Depois da ação, Kelly atinge o seu propósito na reação com o possível reconhecimento das imagens e do abandono das casas, tornando-as visíveis e estabelecendo diálogos para o resgate e conservação da memória.

O seu trabalho realizado em duas etapas, com o lançamento de postais e com o mapa adesivado no chão, como uma cartografia, indica lugares/não-lugares, mostrando-nos uma obra rica e experimental em sua pesquisa para a instauração de um espaço de reflexão e não-indiferença.

O tema está proposto e aos observadores de sua poética fica o convite: viajar por este território através de seu processo criativo. Nós contempladores da frágil existência humana, vamos povoar o nosso imaginário com a visão dessas casas e a infinitude que deixam marcas sutis no nosso coração e na nossa memória.

As casas sem alma, com sua interioridade encerrada, estão no interstício entre a ausência e a presença e na sutura entre a arte e a vida.

Ana Méri Zavadil /Curadora

Mestranda em Artes Visuais UFSM/ Bolsista Capes



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10.11.09

3 x 3: poéticas em processo





É o resultado do trabalho desenvolvido por entre os artistas Fernando Codevilla, Kelly Wendt, Odete Calderan e seus colegas teóricos Ana Méri Zavadil, Greice Antolini, Rejane Berger, uma exposição de trabalhos de pesquisadores que atuam sob a marca da sistematização no terreno movediço dos projetos. Enquanto pesquisadores, nossos artistas articulam suas poéticas -a prática e a reflexão teórica- registrando passo a passo o processo intaurador. Atuando no estreito limite entre o fazer e o pensar arte, sem estarem presas a modelos previamente estabelecidos, suas obras transitem por procedimentos tradicionais e contemporâneos, como a atividade híbrida de Vj de Fernando Codevilla, a ação atemporal das deambulações de Kelly Wendt e o fazer cerâmico de Odete Calderan. Também variados são seus suportes, seus materiais e suas técnicas, um universo que acolhe o objeto cerâmico, a câmerafone, a imagem digital, o corpo, o vídeo, os postais, os sons, os adesivos, a fotografia.

São artistas contemporâneos na articulação da reflexão teórica e das poéticas, na consciência da transitoriedade e da efemeridade das coisas; na ampliação do conceito de ateliê como lugar qualquer no mundo; na certeza da necessidade da circulação de idéias e de imagens ( não importa como, contando que circulem). São atores/autores de poéticas fundadas nos deslocamentos, nas caminhadas e nas derivas, procedimentos contemporâneos (se bem que fundados na história). Mas eles são românticos ao re-materializar com as suas ações, nos sentidos dos que os veêm e os ouvem, a aura das obras de arte outrora destruída. São românticos como jovens do século XIX, ao mesmo tempo contraditórios e paradoxais, utópicos e realistas, contemporâneos e nostálgicos, idealistas e pragmáticos,permanentes e transitórios, como tão bem assenta aos românticos de quaisquer épocas.

Paulo Gomes/ Curador da exposição 3x3
Professor Doutor em Artes Visuais/ UFRGS